O fim de uma guerra, o começo de uma luta

Ontem vimos o desfecho da eleição presidencial mais acirrada desde a redemocratização do Brasil. Gostaria muito de poder dizer que foi acirrada pelas propostas, pelas ideias, mas infelizmente votamos no menos pior. Votei em Aécio não por acreditar que ao final de seu mandato o Brasil fosse ostentar números noruegueses, mas por acreditar que pro processo histórico de consolidação de nossa ainda jovem democracia, era importante alternarmos o poder. Quis a maioria do Brasil que essa alternância esperasse mais alguns anos (quatro no mínimo). O saldo disso tudo é que ainda a alternância não tenha vindo, há um claro recado no ar. Aécio se vencedor fosse, saberia que não governaria com maioria satisfeita. Dilma, reeleita que está também o sabe. A eleição é efêmera, o governo é perene. Passado esse momento em que havia um misto de razão (em menor escala) e paixão (em maior escala) de ambos os lados, deve-se descer do palanque e continuar a vida. O Brasil precisa de um governo que trabalhe pela unidade e pelo respeito à instituições. A oposição sai fortalecida, pois pela primeira vez desde que saiu do poder viu a real perspectiva de voltar a ocupá-lo. Sinto um clima de vitória de todos no ar. Um governo que vai pisar em ovos, mas que é legítimo. Uma oposição fortalecida popularmente e que também é legítima. Não existem santos em nenhum dos lados, e também nem todos são demônios em ambos os lados. Dilma é menos eloquente, mas não é menos inteligente que Aécio. Aécio é mais experimentado, mas não é mais honesto do que Dilma. A escolha foi feita. O caminho está traçado. Falar em impeachment é a meu ver absurdo. O Brasil está claramente dividido, e isso é bom. Toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues. Hoje o Brasil claramente deu um passo pra se afastar da burrice. Pois não tem um governo unânime, e nem uma oposição unânime. Quero crer que essa divisão do Brasil vá manter-se apenas no campo das ideias. Vou ignorar as mensagens de divisão do Brasil pois são mero relinche. Metade dos brasileiros não quer o atual modelo de governo, metade mais um quer. Isso significa que durante os próximos quatro anos teremos sucessivos debates em mesas de bar, a cada medida do acertada do governo, teremos metade do Brasil gabando-se de ter votado em quem votou, a cada erro do governo teremos metade do Brasil criticando e cobrando melhorias e providências. Nossa democracia amadureceu mais um pouco. O nível das eleições foi baixo demais, e inversamente proporcional a ele foi o número de abstenções, brancos e nulos. Espero que nos próximos quatro anos as coisas sejam diferentes. Que seja pavimentado o caminho pra uma eleição bem diferente dessa que assistimos, com metralhadoras de argumentos e não com canhões de lama. Se considero valores republicanos, não considero que numa eleição hajam vencedores e vencidos, afinal, ainda que o eleito não tenho sido aquele em quem votei, o eleito agora é meu representante. Cabe aos não eleitos a fiscalização, proposição, denunciação quando necessário e acompanhamento dos eleitos. Cabe aos eleitos o chamamento à união, a abertura pras discussões, a grandeza de reconhecer que não sabe tudo e que boas ideias podem vir de qualquer lugar. No fim das contas, todos queremos atingir o mesmo destino, que é um Brasil com qualidade de vida para todos, a diferença são os caminhos apontados para esse mesmo destino. Boa sorte aos eleitos, contamos com vocês pra administrar bem nossos recursos e melhorar cada vez mais ao Brasil. Obrigado aos não eleitos. Contamos com vocês pra fazer uma oposição eficiente, propositiva e atuante. Precisamos dos dois. Parabéns ao Brasil. Em 26 de outubro de 2014 consolidamos mais um passo na nossa ainda tão jovem democracia, mais jovem do que eu, inclusive. O Brasil em que eu vivo aos 30 anos é melhor do que Brasil em que minha avó viveu as 30 anos, e de verdade acredito que estamos num bom caminho pra que ele seja melhor ainda quando meus filhos tiverem 30 anos. Ainda que falte ordem, sim, eu enxergo que há progresso.

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~ por Marcelo Amil em outubro 27, 2014.

Uma resposta to “O fim de uma guerra, o começo de uma luta”

  1. Gostei bastante!

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