E a corda arrebenta do lado mais forte

Recentemente face ao momento que vive o Brasil, um amigo meu me perguntou se eu acreditava numa guerra civil. Respondi com tranqüilidade que não. E não acredito mesmo. Não há na história recente registro de guerras civis em democracias consolidadas. Houve nesse período alguns golpes brancos. Honduras e Paraguai são exemplos disso. Zelaya e Lugo foram destituídos, mas com interpretações constitucionais. Ainda que discutíveis, mas constitucionais. Notem que estou ignorando o crime cometido em Honduras, de invadir a casa de Zelaya e expulsá-lo sumariamente do país, mas não fosse isso, seria uma briga de tribunais.

Pra que haja uma guerra civil, precisamos ter dois lados definidos. Um é obviamente o governo. No momento brasileiro, não temos um “outro lado” definido. Temos um descontentamento geral. Não há uma pauta clara de pedidos. Ainda que se tenha tentado sistematizar alguns, o movimento foi tão espontâneo que não vestiu uma camisa. Não há uma liderança legítima. Há um aglomerado de idealistas proativos, uns mais politizados, outros menos. O que enxergamos na rua é um recado de que o Brasil precisa melhorar. Como? Não temos muita certeza, mas do jeito que está não pode ficar. Todos os poderes sentiram a pressão. Todos se assustaram. Dilma poderia ter proposto o pacto com os governadores e prefeitos antes? Sim, poderia. O congresso poderia ter jogado a PEC 37 no lixo e transformado a corrupção em crime hediondo antes? Sim, poderia. O STF poderia ter mandado prender Natan Donadon antes? Sim, poderia. Todos poderiam ter feito tudo isso, mas não fizeram. Quem iniciou manifestações, perdeu o controle dela. Não se tinha idéia do que estava acontecendo, do que estava começando. Todos os dias abro o jornal e vejo mais uma medida do poder tentando acalmar as ruas. Enojou-me a cara de pau de deputados posando com cartazes de não à PEC 37. Vcs são a escória da sociedade. Poderiam ter o mínimo de hombridade e votar calados. Mas no picadeiro que se tornou o congresso da câmara, os palhaços foram eles. E não tiveram a mínima graça.

Até o momento, houve muito mise en scéne. Houve por parte do governo que propôs um plebiscito achando que isso iria acalmar o povo, ou melhor, achando que somos idiotas, e 24 horas depois voltou atrás. Houve por parte do legislativo que teve que se render ao clamor popular e às ordens do executivo. Sim, não se iludam. O congresso aprovou o que aprovou por decisão do alto clero juntamente com o governo. E um outro, o que mais me chamou a atenção foi o do STF, entrando na dancinha do “eu também escuto o povo”. Marco Donadon merece cadeia faz tempo, mas nesse momento ele foi o pedaço de carne jogado às piranhas. Foi a satisfação que o STF precisou dar, assim como o governo e o congresso. Mas Donadon é peixe pequeno. É fácil demais mandar prender (mesmo que com justiça) o deputado federal de Rondônia. O Brasil aguarda ansioso pela prisão de João Paulo Cunha e José Dirceu.

O bom de não ter uma bandeira definida é que o poder não sabe porque está apanhando, mas sabe que merece. O ruim de não ter uma bandeira definida é não sabermos onde isso vai parar. Até onde vamos?

Os protestos tendem a perder intensidade. O Brasil sai maior disso. Agora sabemos como a câmara vai proceder quando um de seus membros receber um mandado de prisão. Agora os scroques pensarão um pouco antes de fazer suas bandalheiras com o nosso dinheiro. Agora o judiciário vai refletir melhor sobre sua agilidade. Agora todos refletiremos um pouco mais sobre quem somos e qual nosso papel nesse país.

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~ por Marcelo Amil em junho 27, 2013.

Uma resposta to “E a corda arrebenta do lado mais forte”

  1. Muito bom Marcelo!! Parabéns!!”Quem sabe sabe , quem não sabe bate palmas”

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